Episódio 2

Sex, 12 out 2018

Diana decidiu que não valia a pena continuar a estudar depois da vida lhe ter pregado dois pares de estalos. O primeiro deles foi a morte do pai. Fora despedido. A empresa, onde trabalhara toda a vida, entrara em crise e puseram dezenas de homens e mulheres na rua. O pai, o senhor Manuel, como era conhecido no Bairro, tinha orgulho em ter trabalho firme desde novo.



Achava que os homens se afirmavam trabalhando e nunca ligara àqueles que o seduziam para o contrabando de tabaco e, até, para os negócios da droga. Diana era a menina dos seus olhos. Por ela trabalharia até doer. Por ela e por Augusta, sua esposa, que uma doença de ossos atirara para reforma precoce.



Ainda tentou arranjar novo oficio mas a crise devorava empregos e, onde perguntava, respondiam-lhe que estava velho.Aos 45 anos, o senhor Manuel, convenceu-se que estava velho, incapaz, improdutivo, sem forma de arranjar sustento para os seus. Entrou em depressão. E uma tarde, Diana chegou da escola e teve um choque. O pai balouçava sinistramente enforcado num dos quartos da casa. A dignidade ofendida fora mais forte que o impulso de vida e desistiu. Diana tinha 9 anos.


Aguentou o embate,ajudando a mãe doente, indo á escola, bebendo as lágrimas da ausência e da saudade. Um dia, na televisão, um dos administradores da empresa, onde o senhor Manuel trabalhara, foi entrevistado. Ganhava 100 mil euros por mês e a mãe não soube responder-lhe porque é que o pai, que ganhava apenas 800 euros, fora despedido e aquele homem ganhava tanto como cento e tal pais igual ao dela. Talvez a mãe soubesse responder mas não tinha forças. A morte do marido acelerara a doença e numa noite de grande sofrimento, veio a ambulância e levou-a para o hospital. Nessa mesma noite, o Bifanas, o maior bandido do Bairro foi falar com ela. Estava assustada e o Bifanas acalmou-a. Enquanto o seu grupo pudesse, Diana podia contar com eles. Lembrou-se do pai, do seu desprezo para quem andava no mundo do crime, agradeceu envergonhada e rezou para que a mãe Augusta regressasse depressa e curada a casa.

Regressou no dia seguinte. Haviam-lhe tirado as dores nos ossos e mandado para casa pois os tratamentos eram caros e a reforma dela não dava para comer quanto mais para ter atenção médica.



E nessa mesma noite, Augusta partiu para sempre. Em apenas um mês, Diana ficou órfã.

Nem o conforto da vizinha Natércia lhe tiraram a revolta. Não chorou. Não se lamentou. Uma estranha fúria tomou conta de si e da sua desgraça. E dois dias depois foi oferecer-se para o bando do Bifanas. O seu lugar-tenente, o Batman, resistiu.


Já tinham uma rapariga no grupo, a Nicha, não precisavam de mais miúdas. Sem força para uma sessão de porrada, sem pernas para uma corrida á frente da polícia. O Batman gostava de dar opinião sobre tudo e tinha algum despeito de não ser o chefe, mas a verdade é que o Bifanas tinha uma pistola. E quem está armado é quem manda. Aceitou Diana no grupo.



Eram sete, contando com ela. Roubavam em supermercados e comboios. Nas praias e em centros comerciais. Roubavam por esticão, por descuido, por arrombamento. Bifanas controlava a venda de droga no Bairro e assumia a sua autoridade à força de murro e de tiros. Mas que se soubesse, nunca matara ninguém. Diana insistia que deviam atacar quem tinha dinheiro. Bifanas sonhava ter uma distribuição de droga para lá do Bairro.


Porém, era mais conversa do que acções. Um dia, cansada da vida de vadia maltrapilha, Diana decidiu mudar de vida. Roubou a pistola a Bifanas e matou-o depois de o humilhar.

Perante a crueldade do assassinato, Batman rendeu-se com medo dela. Jurou-lhe fidelidade eterna e o grupo juntou-se a ela. Diana tornou-se na princesa do Bairro. A vida encarregou-se de fazer dela rainha da cidade.

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